segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Calipígia

 

                                                                                                   calipígia


Aquele dia, as maritacas cantaram mais do que o normal. Os gatos se espreguiçaram e foram como de costume, comer e beber água para, logo em seguida, se debruçarem na parte de fora da janela e tomar banho de sol.

O cheiro do café coado por algum morador era mais forte que o normal, e o Sr. Galdino já tagarelava com as pessoas lá embaixo sobre os nove filhos que teve e o quanto era grato ao João, síndico do prédio, por tê-lo mantido trabalhando mesmo após a aposentadoria.

Meu telefone tocou pelo menos umas seis vezes com chamadas que não constavam na minha lista, possivelmente cobranças ou ofertas de empréstimo. O vento soprava forte, fazendo as árvores balançarem e derrubarem algumas folhas no chão. As buzinas, ao longe, na Avenida Monteiro Lobato, soavam audíveis dentro de casa. Talvez mais um acidente de moto, talvez mais uma colisão entre carros. Não sei.

Nesse dia, fui três vezes ao mercado. Preparei o almoço, voltei para comprar pão e tomar café da tarde e, à noite, saí novamente para comprar tomates e cebolas para um molho. Trabalhei em casa, e a internet caiu mais de três vezes. O telefone tocou outras três vezes ao longo do dia. O sol se pôs e o frio tomou conta do ambiente. A portaria ligou para dizer que havia uma entrega para eu buscar na administração.

O cheiro do feijão cozido tomou conta de todo o apartamento em questão de segundos, enquanto eu comia comida requentada, procurando uma série ou um filme que me mantivesse ocupado — melhor ocupado do que embriagado. 

A vida corria na sua normalidade aparentemente, entretanto, as cores pareciam menos cores, e os passarinhos cantavam meio rouco, os gatos, tadinhos dos gatos, miam por qualquer coisa, em busca de uma afago que nunca vinha, a comida parecia sem gosto, o som parecia descompassado, a vida era menos vida.

Tudo isso para dizer que o dia sem você só não era e durava 24 horas.



*Texto ligeiramente inspirado no livro " Lia " do autor Caetano Calindo


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